segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Saber sobre...


Historicidade do Evangelho da infância do Messias, segundo São Lucas (I)

O Evangelho da infância, segundo São Lucas, apresenta-se prefaciado com declaração nítida de historicidade:

"Visto que muitos já tentaram compor a narração dos fatos que se cumpriram entre nós - conforme no-los transmitiram os que, desde o princípio, foram testemunhas oculares e ministros da Palavra - a mim também pareceu conveniente, após acurada investigação de tudo, desde o princípio, escrever-te de modo ordenado, ilustre Teófilo, para que verifiques a solidez dos ensinamentos que recebeste."

A zelosa preocupação com as "testemunhas oculares", conforme assevera este Prólogo, mostra-se patente nos dois primeiros capítulos da infância do Messias. Lucas se refere aos testemunhos que "guardavam estas palavras e estes fatos" em seu coração (Lc 1, 66; 2, 19 e 51). E seu Evangelho testemunha constantemente a preocupação em se manter informado, não somente junto aos Doze, mas, igualmente, com a família de Jesus, e com as mulheres que o haviam acompanhado, como discípulas, em seu ministério (At 8, 1-3 etc). Em Atos dos Apóstolos (1, 14), Lucas revela destacado lugar na comunidade feminina, dessas duas categorias, (Mulheres e família), citando, entre elas, "Maria, Mãe de Jesus", testemunha e fonte dos relatos da infância, segundo Lc 2, 19 e 51.


Um exame atento dos Evangelhos da infância releva a preocupação de Lucas pela referência exata de fatos e acontecimentos. Detalhei estes índices nos Evangelhos da infância. Eis algumas referências: Lucas relatou a Visitação, retomando, passo a passo, temas e termos do transporte da Arca da Aliança, como refere 2Sm 6. Terá ele criado, inventado a tal citação conforme tal simbólico modelo? Temos um sinal que atesta exatamente o contrário: "A Arca de Iahweh ficou três meses na casa de Obed-Edom de Gat, e Iahweh abençoou a Obed-Edom, e a toda a família" dizia o relato-modelo (2Sm 6, 11). Lucas retoma esta frase e o número de meses, em Lc 1, 56, para avaliar o tempo que Maria passou na casa de Zacarias. Entretanto, acrescenta a palavra "aproximadamente", termo que não pertence ao texto de Samuel. Esta nuance manifesta a preocupação de Lucas em não forçar um paralelo, um confronto.
Ele não faz de Maria uma descendente de Davi - o que teria sido cômodo -, a fim de enriquecer através dela as ligações davídicas de Cristo. A partir do século II, os escritores cristãos, animados por análogo zelo genealógico, não terão o mesmo comedimento. Eles farão de Maria, uma descendente de Davi, não baseados em informações, mas na lógica e na conveniência. Lucas é bem mais rigoroso, por não precisar a ascendência de Maria. Por outro lado, foi-lhe fácil afirmar a ascendência de José [O Anjo Gabriel foi enviado a uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de Davi] (Lc 1, 27) "Os dois" (referindo-se a José e Maria) - poderia ter dito, como o fez, em duas passagens, referindo-se ao casal Zacarias e Isabel. Sem falar sobre esta última (Lc 1, 5), ou sobre a profetisa Ana (Lc2, 36), Maria é a única mulher, da qual ele não precisa a linhagem. Para que Cristo englobasse os traços dos dois Messias de Qumrum: (Messias real, saído do tronco de Davi e Messias sacerdotal, saído de Aarão), Lucas manifestou os vínculos sacerdotais de Jesus: "Isabel era descendente de Aarão (Lc 1, 5), e Maria, sua parenta" (1, 36), expõe o Evangelista.


Historicidade do Evangelho da infância do Messias, segundo São Lucas (II)

Lucas não projeta a glória de Deus no presépio de Belém, como se verificará no Proto-Evangelho de Tiago (Tg 19,2), menos de um século depois. Ele respeita a miserável manjedoura onde Jesus nasceu, iniciando sua trajetória terrestre, já em renúncia e desapego. A Glória de Deus envolve de luz os pobres pastores, na noite de Natal (Lc 2, 9), mas não ilumina sequer o presépio, onde jaz o Messias e Senhor.



Quanto à profecia de Simeão "e a ti, uma espada de dor traspassará tua alma" (Lc 2, 35), Lucas mantém a obscuridade, que continuará a embaraçar a exegese; quando a Paixão e a Ressurreição de Jesus Cristo teriam permitido que aqueles termos fossem clarificados.
Quando os Apócrifos mostram os doutores da Lei, confusos diante da exaustiva ciência de Jesus, Lucas se concentra nas humildes perguntas e respostas do Menino Jesus (Lc 2, 46-47).


Fonte: Padre René Laurentin

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