segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O CORAÇÃO DE MARIA.



O primeiro momento da Tradição é o Coração de Maria 
Se existe unidade profunda em toda a Escritura, existe, então, um ponto de partida e uma conclusão final, visto que o Espírito Santo quis revelar-nos o mistério de Deus por meio de uma história. Então, quem faz o remate, quem finaliza toda Escritura? É São João; são os escritos joaninos.
É, igualmente, na luz de São João que devemos ler toda a Escritura e compreender toda a Revelação. Mas por que teria o Espírito Santo escolhido São João para nos desvendar os últimos segredos? Porque João era o discípulo bem-amado de Cristo. Além disso, foi João quem recebeu Maria, após a morte de Jesus - o que é muito importante. A Palavra de Deus é a Palavra viva, ligada à "boa terra", quer dizer, à Tradição; e o primeiro momento da Tradição é o Coração de Maria.

Maria é a Tradição cristã em sua origem, em sua fonte. Era certo, então, que o último a nos revelar a Palavra de Deus, fosse aquele que esteve intimamente ligado ao mistério da "boa terra". Assim, João está ligado aos corações de Jesus e de Maria; ele está ligado à Mãe Santíssima porque teve a honra de recebê-la no momento doloroso em que ela estava junto ao Filho Jesus, vivendo com Ele o mistério da Cruz.
Segundo recentes precisões exegéticas, os mais conceituados biógrafos e exegetas joaninos - Padres Feuillet, Braun e Spick - são acordes em afirmar que o Evangelho de João foi escrito bem tarde, tendo sido a última obra revelada. Em todas as Bíblias, o Apocalipse é o último livro. Contudo, não é o Apocalipse que a encerra e sim, o Evangelho de João. (...)
João não tinha pressa em escrevê-lo. Acho mesmo que João não tinha vontade de escrevê-lo - e isto é de fácil compreensão. Quando se é testemunho de alguns fatos, quando se está muito ligado a alguém - eram fortes os laços entre Jesus e João - não se tem vontade de escrever sobre esta ligação. Além disso, enquanto vivia entre os Apóstolos, não seria delicado, em relação aos outros, que escrevesse: "Eu sou o discípulo amado".
Podemos ponderar que João encontrou Lucas, um intelectual, artista, dono de inteligência fina e atilada. Ele escrevia bem, num grego perfeito, enquanto o idioma grego utilizado por João era bem mais confuso. João, então, encontrou Lucas que deve ter escrito tudo o que o jovem Apóstolo lhe comunicara. Esta ligação entre os dois, faz lembrar o que Deus realizou entre Moisés e Aarão, no instante da escolha de Moisés. Quando Deus pediu a Moisés que fosse ao encontro do Faraó, para que este libertasse o povo de Israel e o fizesse sair do Egito, Moisés teve medo e logo encontrou uma desculpa: "Perdão, meu Senhor, eu não sou nada eloqüente." Ao que Deus lhe respondeu: "Não existe Aarão, o levita, teu irmão? Eu sei que ele fala bem." Moisés recebeu, então, a inspiração - Deus estava em seu coração e em seus lábios e indicar-lhe-ia o que fazer. "Aarão falará por ti ao povo. Ele será a tua boca." Deus gosta de geminar os seus instrumentos. (Ex 4, 13-16)
Não existem semelhanças entre João e Lucas? João não gagueja, não tartamudeia, mas sua doce personalidade demonstrava que tinha o coração pleno de amor, o que seria uma outra forma de gaguejar, ou melhor, de não ordenar as palavras. Estas não se afirmavam. E quando encontrou Lucas, ele se sentiu desobrigado. É maravilhoso: Lucas iria transmitir tudo o que João tinha a dizer e tudo o que Maria transmitira a João. É por este motivo que o Evangelho de Lucas está tão próximo ao Evangelho de João e os bons exegetas observaram com argúcia a dependência de Lucas em relação a João.
Acho que foi João quem comunicou a Lucas a maioria das passagens que este último nos relata. Observemos tudo o que Lucas conta sobre o início da vida de Jesus: a Anunciação, a Visitação, Belém, o Nascimento, toda a sua vida oculta... Quem terá testemunhado esta vida velada, oculta?
Lucas é um historiador de grande inteligência; desde o prólogo de seu Evangelho ele esclarece que "pareceu-me conveniente, após acurada investigação de tudo desde o princípio, escrever de modo ordenado, para que se verifique a solidez dos ensinamentos (...) (Lc 1, 2-4) . Ele fez questão, pois de poder contar com os testemunhos. Ora, quem teria testemunhado desde o início? Existe uma única pessoa: Maria. E quem recebeu Maria, a pedido de Jesus, quando morria na Cruz? João. Compreendemos, então, que Lucas muito recebeu de João; Lucas tenciona escrever um Evangelho mais completo do que o de Marcos e de Mateus. E como? Ele vai direto às fontes. Em nossos dias, os intelectuais são peritos em encontrar velhos manuscritos. Se descobrem que em tal biblioteca existe um antigo e surpreendente documento que não tenha sido consultado por ninguém, eles não hesitarão em atravessar quilômetros e mais quilômetros, em perder um tempo considerável para pesquisar e compreender tais tesouros. E, não se tratando de algo escrito, mas de uma fonte ainda velada, o que não teriam feito tais pesquisadores?
O coração de Maria não é um documento, mas uma fonte. "Ela guardava em seu coração" a Palavra de Deus (Lc 2, 19 e 51).
João considerava-se, então, uma pessoa liberada. Não precisava mais escrever sobre o Evangelho, visto que Lucas já o fazia. Sentia-se muito tranqüilo e feliz, porém Deus o aguardava. O Espírito Santo sempre age desta forma, com extraordinária delicadeza e sem jamais se entediar. São João é um excelente exemplo desta conduta misericordiosa de Deus para conosco.
Efetivamente, no fim de sua vida, o idoso João, aos 85 anos, encontrava-se refugiado na ilha de Patmos "por causa da Palavra (Logos) de Deus e do testemunho de Jesus." (Ap 1, 9). E eis que o Espírito Santo o espera, se apossa dele, e João recebe a revelação surpreendente do Apocalipse, o que o transtorna profundamente. É importante que se leia esta revelação extraordinária que fez com que João compreendesse que toda a Igreja está ligada a Cristo Jesus. Esta é a grande Revelação da Santíssima Trindade; é a grande Revelação do Cordeiro.
Quando João recebeu esta revelação, chamada O Apocalipse, compreendeu que a Igreja de Jesus Cristo, a que nasceu da Santa Cruz, deveria seguir toda a experiência de vida de Jesus. A Igreja de Cristo deve segui-Lo, "seguir o Cordeiro onde quer que Ele vá" (Ap. 14, 4) e, assim sendo, deve vivenciar necessariamente tudo o que o Cordeiro viveu. A Igreja deve viver a Agonia, a Cruz, o Sepulcro. A partir daquele momento, surgiu, no olhar de João, algo de completamente novo, atinente à Igreja. A partir desta Revelação, o Apóstolo João passa a amar esta Igreja de forma totalmente nova.
Isto nos faz compreender que, após ter escrito o Apocalipse, ele deve ter composto sua primeira Epístola que é o seu livro da espiritualidade. O Apocalipse é o livro da esperança, porque faz com que possamos entender que as nossas lutas são as lutas de Jesus e, a Primeira Epístola, é o livro da caridade fraterna, em que João nos ensina o que é a vida cristã e quais são as suas dimensões: luz, caridade e amor.
Enfim, João nos dá o Evangelho, livro da fé contemplativa, que se inicia com o Prólogo, de difícil compreensão, mas magnífico, porque nos dá a luz que irá esclarecer e iluminar todo o seu conteúdo.
Trecho do livro Suivre l'Agneau (Seguir o Cordeiro) do Padre Marie Dominique Philippe

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