segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Observador de aparências


Jesus não prestava atenção somente nos lírios do campo, nos pássaros do céu, mas também era um profundo observador da conduta humana: das crianças simples e sem falsidade, das viúvas que oferecem tudo o que têm, dos pecadores que, no fundo, têm um coração aberto ao perdão e ao arrependimento... E também prestará atenção nos aparentes, nos que caminham pela vida da propaganda e da etiqueta.

Jesus foi convidado à casa de um dos fariseus num sábado. Tanto Ele como os outros, todos observavam mutuamente aquele convite. O que Jesus viu? Que as pessoas procuravam se sentar nos primeiros lugares, para sair na foto da sociedade do lugar, para estar na boca do povo e sentir-se na passarela da influência e do renome.

Jesus falará sempre da verdade, pela verdade morrerá, da verdade se autodefinirá. Jamais a partir da aparência. Porque a aparência é sempre uma mentira, mais ou menos camuflada, mais ou menos procurada e querida. Ser o que no fundo não se é, aparentar e passar a perna, usar máscaras, viver num eterno carnaval. Uma pessoa assim, que vive a vida com sua fantasia particular (pouco importa se tal fantasia é ideológica, cultural, econômica ou inclusive religiosa), é uma pessoa vendida a si mesma, às suas pretensões; uma pessoa escrava das suas próprias correntes, e por isso inábil para a liberdade e para a simplicidade.

"Quando tu fores convidado para uma festa de casamento, não ocupes o primeiro lugar" ( Lc 14, 8). Não só pelo mal-estar que pode supor depois o fato de o anfitrião tirá-lo do seu podium e devolver-lhe à sua crua realidade, mas porque quem tem pretensões indevidas, quem vai como "capa de revista", é difícil que compreenda sua dignidade e a dos demais, quando tão ocupado está com sua aparência.

São Francisco dirá isso com sua proverbial simplicidade: "Somos o que somos diante de Deus e não mais" (Admoestação 19). Só quem experimentou a liberdade de ser e de querer ser o que somos aos olhos de Deus, somente esse pode entender Jesus. São os olhos do Senhor que nos guiam na senda verdadeira, que nos conduzem a reempreender o caminho sempre que nos cansamos de andar, que nos desviam quando nossos passos se torcem, que se tornam luz e graça para caminhar. Os olhos de Deus não enganam nunca, não humilham jamais, iluminam sem cegar. Feliz quem vive assim, simplesmente, porque experimentará o que é viver na paz, na liberdade, sem ansiedades devoradoras, sem poses hipócritas, sem truques fictícios... Sendo quem somos diante de nós mesmos e diante dos outros, o que somos diante de Deus.
Por Dom Jesús Sanz Montes, ofm, arcebispo de Oviedo

Um comentário:

Adilson Rosa disse...

Existem na minha opinião aqueles que sabendo desta passagem do Evangelho, utilizam de estratégia para ficar no fundo onde esta acontecendo a festa, por saber que, quem o convidou o irá chamar dizendo amigo, venha para frente, só que Jesus conhece estes tipos de pessoas e os deixa de lado.
Nós muitas vezes fazemos isto, inconcientemente as vezes por sabermos um pouco mais das coisas, por termos mais oportunidades. Nestes caso é importante que ao sabermos mais, possamos nos manter humildes e Deus nos dará mais e mais porque ELE sabe que estamos partilhando com quem não tem, e não entende o que nós entendemos.
A humildade cabe em todo e qualquer lugar, exemplo disto é que o Maior de todos os homens se colocou de joelhos diante dos Discípulos num ato de humildade e amor.