quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A segunda Eva e a Imaculada Conceição


Como nos ensinam os padres em nosso aprendizado de reparação, Maria desempenha o papel que Eva mantivera em nossa queda. Inicialmente, graças a que dons Eva se encontrava preparada para afrontar aquela provação? Mesmo inocente e sem pecado, não possuindo o dom de uma graça abundante, ela não conseguiria resistir às ciladas do demônio. E este dom, ela possuía: um dom celeste, acima desta natureza que ela havia recebido de Adão, um dom que a excedia e que a complementava - um dom recebido por Adão desde o momento de sua formação (habitualmente acreditamos nisso). Assim nos explicam, tanto a doutrina anglicana quanto a católica.

Se Eva foi elevada acima da natureza humana por meio deste dom moral interior, que nomeamos “graça”, existe alguma audácia em dizer que Maria desfruta de uma graça ainda maior? Esta consideração atribui todo o seu sentido à saudação “cheia de graça” que lhe confere o Anjo. Esta interpretação do termo original é, sem qualquer sombra de dúvida, a boa interpretação, desde que se afaste a tese habitualmente recebida pelos protestantes, segundo a qual a graça é apenas uma aprovação ou aceitação externa, correspondente à palavra “favor”. Na realidade, como ensinam os Pais da Igreja, a graça é um estado interior bem real, uma qualidade a mais, acrescentada à alma.

Uma vez admitido que Eva recebeu este dom interior sobrenatural, desde o primeiro instante de sua existência pessoal, seria possível negar que Maria também possuía este dom, desde o primeiro instante de sua existência? Não vejo como recusar esta conclusão. Muito bem, aí está, simples e literalmente, a doutrina da Imaculada Conceição. Afirmo que (à parte a questão dos graus da graça) a doutrina da Imaculada Conceição é substancialmente esta, nem mais nem menos. Na verdade, ela me parece implicada na doutrina patrística, segundo a qual Maria é a segunda Eva. Suponha, por um instante, que Eva tenha triunfado na provação pela qual passou e que não tenha perdido sua graça inicial; suponha que nesse estado de graça, ela teria tido filhos.

Como efeito da bondade divina, essas crianças teriam recebido, desde o nascimento, o mesmo privilégio que a mãe; quer dizer, mesmo tendo saído da costela de Adão, por assim dizer, revestidos de graça, os filhos, por sua vez, teriam recebido o que podemos definir como “uma concepção imaculada”. Eles teriam sido concebidos em estado de graça, quando, na realidade, foram concebidos no pecado.

Existe alguma dificuldade nesta doutrina, algo de forçado, de exagerado? Maria pode ser chamada, por assim dizer, a filha de Eva que não caiu.

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