sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A Viagem para Belém


Vejo uma longa estrada e nela, grande multidão. Burrinhos carregados de móveis e de pessoas, num intenso vaivém. As pessoas esporeiam suas cavalgaduras e quem está a pé, caminha apressado, porque está muito frio.

Sente-se o ar puro e seco. O céu, sereno; porém, em tudo, existe a aparência precisa dos dias de inverno. O campo, despojado de seus verdes, parece mais vasto. Os pastos apresentam ervas ralas, queimadas pelos ventos do inverno. Sobre as pastagens, os rebanhos buscam um pouco de alimento e esperam o nascer do sol que surge, lentamente. Eles se aconchegam uns contra os outros porque também sentem frio. (...)

Maria está sobre um burrinho cinza, bem agasalhada, envolta em denso manto (...)

José caminha ao seu lado, com a rédea na mão. De quando em vez, pergunta: “- Estás cansada?”

Maria olha para ele, e responde, sorrindo: “ - Não”. Na terceira vez, ela acrescenta: “- Acho que deves estar cansado, José, pois estás caminhando, há bastante tempo.”

Os dois seguem, silenciosos. Dir-se-ia que a Virgem, quando em silêncio, recolhe-se em oração interior. Sorri, suavemente, a um de seus pensamentos e mesmo tendo os olhos pousados sobre a multidão, parece não ver ninguém: nem homens, nem mulheres, idosos ou pastores, ricos ou pobres. O que ela vê diante de si é algo só dela.

“- Tens frio?” pergunta José, preocupado com o vento que se intensifica.

“- Não, obrigada.”

Mas José sabe que ela não quer incomodá-lo. Toca, então, os pés de Maria, que se estendem sobre o flanco do animal. As sandálias, aparecem sob a longa veste. Ele percebe que os pés de Maria estão frios, porque sacode a cabeça e se ampara de uma coberta que estava na sacola a tiracolo, estendendo-a sobre Maria, cobrindo-a até os ombros, para aquecer-lhe as mãos, sob a manta e sob a coberta.

A viagem a Belém

José e Maria chegam ao albergue; porém, a estalagem estava repleta. Havia pessoas abrigadas, até mesmo sob os pórticos rústicos que cingiam o pátio interno.

José deixa Maria no interior do átrio e sai, em busca de um lugar para dormirem, mas retorna, desalentado. Não havia lugar algum. O precoce crepúsculo do inverno começa a abrir suas velas. José implora ao dono da estalagem e aos viajantes que lhe consigam ou cedam um lugar. “Vós sois homens saudáveis; aqui está uma mulher, prestes a dar à luz a uma criança. Tende piedade!” E nada. Eis que um rico fariseu o observa com visível desprezo e, quando Maria se aproxima, afasta-se como se uma leprosa tivesse se aproximado dele. José olha para o homem e o rubor de suas faces traduz a indignação que lhe subiu ao rosto. Maria apóia sua mão sobre o pulso de José para acalmá-lo, dizendo: “- Não insista. Vamos. Deus proverá.”

Eles partem, seguindo a parede externa do albergue. Aventuram-se por uma ruela estreita, espremida entre casas simples e pobres. Contornam a estalagem e procuram, procuram. Descobrem algumas espécies de grutas ou caves, eu diria, mesmo, de estábulos, tão baixas e úmidas que são. As mais bonitas já estão ocupadas. José está acabrunhado.

“Olá! Galileu!” Gritou-lhe um homem idoso, por detrás de suas costas. “Lá, no fundo, sob aquelas ruínas, há uma cova, um casebre. Talvez esteja vazio.”

Eles se aproximam da tal “cova” que é, verdadeiramente, um casebre. Entre os escombros de uma casa em ruínas, surgia um refúgio, além do qual havia uma caverna, na verdade, um buraco na montanha, mais do que uma gruta. Pareciam fundações de antiga construção, para as quais os materiais escorados por esses troncos de árvore, apenas cortados, serviam de teto.

Para poder ver melhor, pois havia pouca luz na tarde que se esvaía, José ilumina a pequena lâmpada que estava no alforje que tinha, a tiracolo. Ele entra e um mugido o saúda. Chamando a Vigem, disse: “Vem, Maria, aqui está vazio, só tem um boizinho.” Sorrindo José continua: “É melhor do que nada!...”

Maria desce do burrinho e entra.

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