quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Se eu fosse pintor


Se eu fosse pintor, seria nestes momentos que pintaria a Virgem Maria

A Virgem está pálida e olha para a sua criança. O que deveria ser pintado em relação ao seu rosto, seria deslumbramento apreensivo que apareceu apenas uma vez numa representação humana. Pois Jesus Cristo é seu filho, carne de sua carne e fruto de suas entranhas. Ela o levou em seu seio durante nove meses, Ela o amamentou e seu leite tornou-se o sangue de Deus. Às vezes, a tentação seria tão forte que A Virgem esqueceria que Ele, seu filho, é Deus. Maria O envolvia, abraçava-O ardorosamente, com muito amor e carinho e, tendo-o nos braços, dizia-lhe:"Meu neném!"


Porém, em outros momentos, Ela se manteve perturbada e pensava: Deus estava ao seu lado e Ela se sentia tomada por um certo temor religioso, por este Deus calado, por esta Criança

incrível. Todas as mães passam por estas provas... e sentem-se, às vezes, paralisadas diante daquele insurgente fragmento de sua carne, que é o seu filho, tendo a sensação de estarem no exílio diante daquela nova vida feita com a sua própria existência e que habita em pensamentos desconhecidos. Mas, nenhuma criança foi executada mais cruelmente, do que Aquela especial, e arrancada de sua mãe de forma mais cruel, pois Ele é Deus e ultrapassa, de forma absoluta, o que ela poderia imaginar. E esta é uma dura prova para u´a mãe, a de ter vergonha de si e de sua condição humana, diante de seu filho. Contudo, eu imagino que existem outros momentos, igualmente, rápidos e escorregadios, em que Maria sente, ao mesmo tempo, que Jesus Cristo é seu filho, seu Menininho, inteiramente seu, e que Ele é Deus. Ela o observa e reflete: "Este Deus é meu filho. Esta carne divina é a minha carne. Ele foi feito do meu corpo, possui os meus olhos, e seus lábios têm a forma dos meus lábios. Ele se parece comigo. Ele é Deus e se parece comigo." E nenhuma mulher teve Deus somente para si. Só Maria teve este privilégio. Um Deus, pequenino, podendo tê-lo em seus braços, cobri-lo de beijos, amor e carinho, um Deus que vive na carne, que sorri, que respira. Um Deus que pode ser tocado e que vive.

E, se eu fosse pintor, seria nestes momentos que pintaria Maria e tentaria colocar em seu rosto, um ar de terna ousadia e de timidez, representado pela mão estendida, desejando tocar a pele macia do Menino-Deus, sentindo sobre os joelhos o doce peso da criança que lhe sorri.


Jean Paul Sartre

Meditação escrita durante a guerra.

Nenhum comentário: