segunda-feira, 21 de julho de 2014

Do Tratado sobre a Oração do Senhor, de São Cipriano, bispo e mártir

Nós, filhos de Deus, permaneçamos na paz de Deus
    Cristo acrescentou claramente uma lei que nos obriga a determinada condição: que
peçamos a remissão das dívidas, se nós mesmos perdoarmos aos nossos devedores,
sabendo que não podemos alcançar o perdão pedido a não ser que façamos o mesmo em
relação aos que nos ofendem. Por esta razão, diz em
outro lugar: Com a mesma medida
com que medirdes, sereis medidos. E aquele servo que, perdoado de toda a dívida por
seu senhor, mas não quis perdoar o companheiro, foi lançado ao cárcere. Por não ter
querido ser indulgente com o companheiro, perdeu a indulgência com que fora tratado
por seu senhor.

    Cristo propõe o perdão com preceito mais forte e censura ainda mais vigorosa: Quando
fordes orar, perdoai se tendes algo contra outro, para que vosso Pai, que está nos céus,
vos perdoe os pecados. Se, porém, não perdoardes, também vosso Pai, que está nos
céus, não vos perdoará os pecados. Não te restará a menor desculpa no dia do juízo,
quando serás julgado de acordo com tua própria sentença e o que tiveres feito, o mesmo
sofrerás.

    Deus ordenou que sejamos pacíficos, concordes e unânimes em sua casa. Mandou que
sejamos tais como nos tornou pelo segundo nascimento; assim também ele nos quer
renascidos e perseverantes. Deste modo nós, filhos de Deus, permaneçamos na paz de
Deus e os que possuem um só Espírito tenham uma só alma e um só coração.

    Deus não aceita o sacrifício do que vive em discórdia e ordena deixar o altar e ir
primeiro reconciliar-se com o irmão, para que, com preces pacíficas, possa Deus ser
aplacado. Maior serviço para Deus é a nossa paz e concórdia fraterna e o povo que foi
feito uno pela unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

    Nos sacrifícios que Abel e Caim foram os primeiros a oferecer, Deus não olhava os
dons, mas os corações, de forma que lhe agradava pelo dom aquele que lhe agradava
pelo coração. Abel, pacífico e justo, sacrificando com inocência a Deus, ensinou os
outros a depositar seus dons no altar com temor de Deus, simplicidade de coração,
empenho de justiça e de concórdia. Aquele que assim procedeu no sacrifício de Deus
tornou-se merecidamente sacrifício para Deus. Sendo o primeiro a dar a conhecer o
martírio, iniciou pela glória de seu sangue a paixão do Senhor, por ter mantido a justiça
e a paz do Senhor. Esses serão, no fim, coroados pelo Senhor; esses, no dia do juízo,
triunfarão com o Senhor.

    Quanto aos discordantes, aos dissidentes, aos que não mantêm a paz com os irmãos,
mesmo que sejam mortos pelo nome de Cristo, não poderão, conforme o testemunho do
santo Apóstolo e da Sagrada Escritura, escapar do crime de desunião fraterna, pois está
escrito: Quem odeia seu irmão é homicida. Não chega ao reino dos céus nem vive com
Deus um homicida. Não pode estar com Cristo quem preferiu a imitação de Judas à de
Cristo.

Fonte: Liturgia das Horas.

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